OU AIS ONITO UANDO ENHO ABELO URTO
OU GORA OMER MA ASANHA EGETARIANA M AFE INGADO
ZONA PREVIAMENTE DEMARCADA EMBORA NÃO SE LHE CONHEÇAM OS SEUS LIMITES
PISTA DE DIMENSÕES DESCONHECIDAS NA QUAL OS SEUS INTERVENIENTES POSSUEM UMA FUNÇÃO EMBORA NÃO ESTEJA ESCLARECIDO SE SE ENCONTRAM NO ACTIVO OU COM PEQUENAS REMINISCÊNCIAS DE FUNÇÕES ANTERIORES
DIETER ROTH E O ENSINO I _ Estava apenas a concordar com cada um deles

DIETER ROTH
Two-Handed Speedy Drawing from the double-sided Trophies series, 1979
© Hansjorg Mayer and Dieter Roth Estate. . Photo: www.zuckerartbooks.com
Em meados dos anos 60, Dieter Roth (Hanover 1930 - Basle 1998) trabalhou e leccionou durante três anos em várias escolas dos Estados Unidos. Durante este período a produção artística de Roth, sofreu uma enorme transformação, desenvolvendo trabalhos multidisciplinares, entre os quais se encontram os mais importantes e aclamados de toda a sua obra. As conversas com amigos, colegas e alunos de Roth, compiladas neste livro, ajudam-nos a iluminar esse período crucial.
DIRK DOBKE em DIETER ROTH IN AMERICA
Edition Hansjörg Mayer, 2004
Dirk Dobke: Conte-me como conheceu Dieter Roth?
Malcolm Grear: Através de Norman Ives, que leccionava em Yale e ao mesmo tempo era professor convidado na Rhode Island School of Design.
Norman queria que Dieter desse aulas na Yale University, contudo a direcção da escola e alguns membros do concelho científico não concordaram.
Na altura, em meados dos anos 60, eu era o director do departamento de design da RISD.
Quando Norman me apresentou a Dieter, o nosso entendimento foi imediato. Propus-lhe que desse aulas no departamento de design gráfico, e mesmo sabendo que não havia qualquer abertura oficial, fizemo-la na mesma. Ouvira dizer que Dieter era um poeta do design, seja lá o que isso signifique, e que também tinha trabalhado para a Companhia Ciba-Geigy. Quando chegou, usava o nome Dieter Rot; supus que se devia ao facto de Roth trabalhar na altura, com comida embolorada e apodrecida.
Creio que Dieter e Norman se conheceram quando Dieter esteve em Filadélfia.
O Philadelphia Museum dera-lhe uma bolsa para vir e criar o que quisesse; porque ele sempre se gabara de que poderia fazer o que quisesse. Quase que enlouqueceu ao tentar perceber e decidir o que seria exactamente isso de fazer o que se quer. Sentado numa sala, desenhou, pareceu-me a mim, durante seis semanas. Depois deu uma festa no estúdio onde trabalhara e convidou uma quantidade de gente — lembro-me de Dieter dizer que Charlotte Moorman tinha vindo nua. Cada convidado pôde escolher um ou dois desenhos dos seus — claro que foram disputados. Depois fez um livro com os que restaram. Creio que hoje, o livro deve estar no Philadelphia Museum.
A meu ver, Norman Ives é um herói do design, injustamente esquecido. Fomos amigos muito chegados.
(...)
Dirk Dobke: - Como é que Dieter ensinava?
Malcolm Grear: - Bem, antes de mais devo-lhe contar que Dieter começou por dizer a toda a turma que às aulas vinha quem queria, invariavelmente fosse qual fosse a escolha de cada aluno, todos obteriam a nota 'B'.
Na primeira aula, deu a cada um deles, 50 cêntimos para irem comprar um livro. Provavelmente os alunos pensaram que teriam de comprar o melhor livro que encontrassem. Foram a alfarrabistas, tentando encontrar o que pensavam ser livros fora de série. Consigo imaginar que alguns deles tenham posto alguns 20 dólares extra do seu próprio bolso. De regresso à sala de aula, na posse dos seus achados (livros bestiais, alguns com gravações a ouro), todos se orgulhavam das compras feitas. Enquanto os mostravam, Dieter examinava-os e ia-lhes colocando todo o tipo de questões. Então pediu-lhes: "Peguem no livro e construam uma torre." Nesse momento, só se ouviram queixumes, uma vez que teriam de cortar os livros bestiais que tinham acabado de comprar.
Começaram por construir a dita torre e um deles perguntou: "Sr. Dieter, não é suposto usarmos cola, pois não?" e ele respondeu: "Não, não é suposto usarem cola." Andava pela sala e quando se aproximou da porta, um outro aluno perguntou-lhe: "Sr. Dieter, não há problema em usar cola, pois não?" ao que Dieter respondeu: "Sim, podem usar cola." Eu pensei, "Ele está a gozar!" Perguntei-lhe: "Disseste a um aluno que não poderia usar cola e a outro que podia!" Dieter replicou: "Não. Um disse 'Não é suposto usarmos' e eu disse ' Sim, não é suposto' e outro disse 'Eu posso' e eu disse 'Sim, podes.' Estava apenas a concordar com cada um deles."
Depois Dieter mandou-os parar e pediu-lhes que utilizassem palavras das páginas que estavam a usar, na construção da torre e com elas fizessem um poema. A partir deste, que elaborassem uma peça musical e por fim que idealizassem símbolos para as notas musicais, construíssem um instrumento musical e dessem um concerto. Juro-te que todos os alunos, por momentos pensaram que eram Mozarts. Entraram completamente no projecto.
Toda a sua filosofia de ensino assentava em, vocês não estão no negócio de produção de portfolios, o vosso negócio é o de fazer arte — ele encarava os exercícios como um processo educacional.
Havia um tipo na turma, que nunca esquecerei, porque se rebelava contra todo este processo — se lhe propusesses um exercício, poderia prontamente arranjá-lo de forma a colocá-lo de imediato no portfolio. Acho que vinha todos os dias para as aulas, de gravata. Ele achava que toda a abordagem e trabalho de Dieter, não passavam de tretas, contudo era profissional o suficiente para não se incompatibilizar com nada. Em todas as aulas cirandava e observava tudo... Certa manhã, percebeu que se tinha esquecido de qualquer coisa e disse: "Sr. Dieter, gostava de lhe mostrar o meu portfolio" (e eu pensei "Oh, não"). Dieter perguntou-lhe: "Onde está o projecto?" e ele respondeu: "Oh, está em minha casa." Dieter disse: "Vamos lá ver isso." E ele disse "Não, não. Não está terminado para o poder ver." porque na verdade, estava a mentir. Dieter disse então: "Traz-me o teu portfolio esta tarde."
Bem, mais tarde, depois da aula questionei Dieter: "Viste o portfolio do aluno?" Ele respondeu: "Sim," e eu perguntei: "O que é que lhe disseste?" Dieter disse: "Fui desonesto com ele, do mesmo modo que ele foi comigo." eu disse: "Como fizeste tu isso?" e ele respondeu: "Disse-lhe que gostava do trabalho dele."
É o tipo de coisas que Dieter poderia fazer.
Providence, 16 de Dezembro de 2003
ACERTAR NA CABEÇA DO PREGO
d) DO VINHO TOMEI ERRE

sobre
A FLAGELAÇÃO DAS BOLSINHAS DE CAMURÇA
seguido de UM OUTRO KRATKI-BASCHIK
de HEIMITO von DODERER
edição Assírio & Alvim, tradução José A. Palma Caetano
DAR Buon Giorno
NEWTON

O cabelo de Newton cresceu de tal forma
que não percebemos se se encontra de frente ou de costas
Hoje ele é contorcionista
O espaço encolheu
e a sua maçã parece não saber exactamente onde cair
por isso paira
Não existem números
apenas acumulação
O axolotl é criado por quase todas as pessoas
Há muito que Möbius nos preparara
para caminharmos por uma só face
ITEM nºFT 270 in use II
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36 35 34 33 32 31 30 29 28 27 26 25 24 23 22 21 20
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106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124
144 143 142 141 140 139 138 137 136 135 134 133 132 131 130 129 128 127 126 125
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LÉOTARD: Homem-foguete morte no céu
A actuação descrita no reputado jornal parisiense Galignani´s Messenger, e trancrita no New York Times reporta-se ao debute (12 Nov 1859) revolucionário de Jules Léotard como trapezista no Cirque Napoléon (porque inaugurado por Napoleão Bonaparte), que ainda hoje existe em Paris sob o nome de Cirque d´Hiver. O número em causa, inaugurou a modalidade de trapézio voador com acrobacias nunca antes realizadas - salto mortal em pleno voo e passagem entre trapézios. Ao 12º minuto, após voos cruzados entre os 3 trapézios, o jovem Léotard findava a sua actuação com um mortal em direcção ao tapete de segurança. Segurança relativíssima de uns meros colchões colocados no chão. Léotard treinava os seus números num trapézio suspenso sobre uma piscina instalada no ginásio de seu pai, professor de ginástica. A primeira rede viria a ser utilizada apenas em 1871 por uma troupe espanhola, The Rizarellis, no Holborn Empire em 1871.
Para Léotard estavam destinados estudos de Direito, augúrios que terá gorado por volta dos seus 18 anos ao experimentar um trapézio de barras, cordas e argolas. Por esta altura Léotard já desenvolvera habilmente a sua ginástica.
Em maio de 1861 o número de circo de Léotard passa a performance de Music Hall arrastando milhares de pessoas a Leicester Square em Londres. Jantava-se no Alhambra Theatre, enquanto Léotard voava literalmente de trapézio para trapézio sobre as cabeças dos convivas.
No Ashburnham Hall em Cremorne, Léotard utilizou 5 trapézios em simultâneo, alcançando cada um deles através de saltos mortais.
He’d fly through the air with the greatest of ease,
A daring young man on the flying trapeze.
His movements were graceful, all girls he could please,
And my love he purloined away.
assim celebrou George Leybourne os feitos de Léotard na canção "The Daring Young Man on the Flying Trapeze"
Pouco antes da chegada de Léotard a Inglaterra, o artigo seguinte aparecia no Era de 19 de Maio de 1861:O que dizer das maravilhosas façanhas de um homem que parece ter concretizado o inconcebível prodígio de superar as leis das forças excêntricas e concêntricas, que desafia a lei da gravidade, que paira no ar como um pássaro, parecendo ter asas pela elasticidade da sua musculatura... Para os feitos de Léotard é preciso ver para crer. O fenómeno Léotard não tem precedentes, alcançou Paris, Viena, São Petersburgo e Berlim; o cognome Flying Man é unânime. Embora não existindo qualquer exagero nestas descrições é plausível que delas se duvide, felizmente em breve poderemos comprová-las por nós mesmos, já que a enorme publicidade feita nos jornais da manhã e os numerosos posters afixados por toda a Londres nos informam que Léotard actuará no Alhambra e seguidamente no Cremorne.
Após a sua actuação de 26 de Maio de 1861:
Nenhuma descrição se pode aproximar ao que realizou durante excitante e intensa meia hora. Literalmente se arremessa no ar a uma enorme altitude, rodopia e segue, agarra-se por breves segundos à barra do trapézio para depois se projectar 20 pés em direcção ao trapézio seguinte, onde se segura pelos pés voltando-se depois num mortal à rectaguarda voando até ao ponto de onde partira. O balanço alcançado pelas cordas aliado à sua investida oscilação corporal desenham o seu progresso no espaço. Nunca antes se vira tal coisa em Inglaterra... Para todos os que anseiam novas sensações, poderão estar certos de que a actuação do Alhambra no que respeita a provas de coragem física, superou qualquer coisa que pudessem ter visto. Decididamente esta é uma das performances que jamais será esquecida.
Assim aparece descrito no Victorian Sensation de Michael Diamond, provavelmente no capítulo Stars of Entertainment.
Casou-se em Londres, durante o estio de 1862. Segundo o registo de casamento de Jean Marie Jules Léotard, amigos e familiares não terão presenciado a união. O casamento não correu bem, reporta The Bayswater Chronicle de 10 Dezembro de 1864:
A esposa de Léotard, uma performer italiana, que se auto intitula de Madame Silvia Bernini colocou uma acção contra o seu marido clamando por separação, o que confirma que o casamento poderá vir a ser anulado. O casal tinha-se casado em Londres a Julho de 1862.
Jules Léotard morreu por Espanha, em tournée, com 28 anos no ano de 1870, não se sabe se devido a cólera ou varíola.
LÉOTARD: The Flying Man
Cirque Napoléon (Cirque d´Hiver), litografia de Fichot

ESPLÊNDIDA FAÇANHA ACROBÁTICA
Uma extraordinária performance atrai multidões todas as noites ao Cirque Napoléon, assim descreve o Galignani.
3 trapézios (peças de madeira com 5 pés de comprimento, suspensas por cordas amarradas às suas extremidades) foram pendurados a partir do tecto do circo, um ao centro e os outros dois distando 40 pés para cada lado.
Um jovem, de nome Jules Léotard, sobe a uma pequena plataforma expressamente idealizada para si, colocada acima dos músicos sobre a entrada que dá passagem aos cavalos. O trapézio mais próximo é colocado em movimento, apanha-o como se voasse e nele se balança suavemente agarrando-o com as duas mãos. Assim se percipita para o espaço.
Após voos que alcançam a extensão máxima das cordas, recua até se apear a salvo no sítio onde começara.
Fá-lo 2 ou 3 vezes para mostrar que apenas se exercita, e novamente se lança no ar, mas desta vez não regressa como anteriormente; espera com o trapézio alcançar o ponto mais distante, para subitamente largar o seu domínio e surgir mais à frente pelo ímpeto de alcançar o 2º trapézio, que agora o transporta na direcção de todo o comprimento da corda, larga-o e voa para o 3º, dele se apeia numa outra plataforma colocada em lugar oposto à que iniciara a sua actuação (...) e decididamente solta as duas mãos rodopiando no ar (...) De novo na plataforma inicial lança-se para a frente e segura o trapézio com as mãos, larga-o no que parece ser o fim da sua actuação para se lançar num mortal aéreo, agarra-se ao 2º trapézio como se dele descesse!
Como é que cérebro, visão e músculos respondem a cada um destes movimentos!
Segundo a peculiar descrição, esta será uma das mais extraordinárias actuações alguma vez presenciadas.
quarta-feira, 5 de Dezembro de 1859, New York Times

ESPLÊNDIDA FAÇANHA ACROBÁTICA
Uma extraordinária performance atrai multidões todas as noites ao Cirque Napoléon, assim descreve o Galignani.
3 trapézios (peças de madeira com 5 pés de comprimento, suspensas por cordas amarradas às suas extremidades) foram pendurados a partir do tecto do circo, um ao centro e os outros dois distando 40 pés para cada lado.
Um jovem, de nome Jules Léotard, sobe a uma pequena plataforma expressamente idealizada para si, colocada acima dos músicos sobre a entrada que dá passagem aos cavalos. O trapézio mais próximo é colocado em movimento, apanha-o como se voasse e nele se balança suavemente agarrando-o com as duas mãos. Assim se percipita para o espaço.
Após voos que alcançam a extensão máxima das cordas, recua até se apear a salvo no sítio onde começara.
Fá-lo 2 ou 3 vezes para mostrar que apenas se exercita, e novamente se lança no ar, mas desta vez não regressa como anteriormente; espera com o trapézio alcançar o ponto mais distante, para subitamente largar o seu domínio e surgir mais à frente pelo ímpeto de alcançar o 2º trapézio, que agora o transporta na direcção de todo o comprimento da corda, larga-o e voa para o 3º, dele se apeia numa outra plataforma colocada em lugar oposto à que iniciara a sua actuação (...) e decididamente solta as duas mãos rodopiando no ar (...) De novo na plataforma inicial lança-se para a frente e segura o trapézio com as mãos, larga-o no que parece ser o fim da sua actuação para se lançar num mortal aéreo, agarra-se ao 2º trapézio como se dele descesse!
Como é que cérebro, visão e músculos respondem a cada um destes movimentos!
Segundo a peculiar descrição, esta será uma das mais extraordinárias actuações alguma vez presenciadas.
quarta-feira, 5 de Dezembro de 1859, New York Times
NEEDS
O PRIMEIRO FUGITIVO_Albert Dadas
Tudo começou “numa manhã de Julho passado, ao entrar no serviço de clínica do nosso mestre M. o professor Pitres, reparámos num jovem de 26 anos a chorar na sua cama de hospital. Chegara de uma longa viagem feita a pé, estava exausto, não sendo contudo a fadiga, a causa das suas lágrimas. Não conseguia impedir-se de partir quando tomado por tal necessidade; era então surpreendido, cativado por um desejo imperioso; abandonava família, trabalho, rotinas e partia repentinamente, caminhando depressa, fazendo 70km a pé num só dia, sendo por fim acusado de vagabundagem e colocado na prisão”. 1
Assim começa a nossa história, no serviço do velho hospital Saint-André de Bordéus. Este jovem, de primeiro nome Albert, é um empregado ocasional de uma companhia de gás, e o primeiro fugitivo. Viria a tornar-se célebre pelas suas extraordinárias expedições à Algéria, Moscovo e Constantinopla. Parte de forma obsessiva, como que enfeitiçado, muitas vezes sem documentos e por vezes na total ausência de identificação, não sabendo quem é, nem por que motivo viaja, certo apenas de qual seria a sua próxima etapa. Quando “chega”, não tem recordações dos lugares que atravessou, mas sob hipnose é capaz de recordar as jornadas feitas e rever anos totalmente esquecidos.
Os relatos médicos acerca de Albert assinalam o início de uma nova epidemia de viajantes alienados compulsivos, cujo epicentro situou-se em Bordéus, não tardando contudo em se estender a Paris, toda a França, Itália e mais tarde Alemanha e Rússia. A fuga provém de um distúrbio médico e recebe as suas primeiras designações: o Wandertrieb alemão é seguido por outros termos de ressonância grega ou latina, tais como automatismo ambulatório, determinismo ambulatório, dromomania ou poriomania.
As fugas, o mesmo será dizer, viagens bizarras e repentinas, decorrem muitas vezes sob estados de consciência obscurecida, são conhecidas desde sempre, mas só a partir de 1887 com a publicação de uma tese de doutoramento, é que a viagem patológica se tornou um tipo específico de demência susceptível de diagnóstico.
Sendo a história de Albert, um conjunto de aventuras picarescas e patéticas, porquê narrá-la actualmente? Porque estamos rodeados por doenças mentais que muitas das vezes derivam mais da neurose que da psicose e que nos questionam acerca de quais poderão estar relacionadas com os afectos, com os artefactos culturais, síndromas ou falsificações suscitadas pela própria profissão médica, e quais, para falar rapidamente e de forma algo obscura, são verdadeiras.
1. Philippe Tissié, Les aliénés voyageurs: essai médico-psychologique. Paris: O. Doin, 1887
IAN HACKING em Les Fous voyageurs
Les Empêcheurs de penser en rond /Le Seuil, mai
Assim começa a nossa história, no serviço do velho hospital Saint-André de Bordéus. Este jovem, de primeiro nome Albert, é um empregado ocasional de uma companhia de gás, e o primeiro fugitivo. Viria a tornar-se célebre pelas suas extraordinárias expedições à Algéria, Moscovo e Constantinopla. Parte de forma obsessiva, como que enfeitiçado, muitas vezes sem documentos e por vezes na total ausência de identificação, não sabendo quem é, nem por que motivo viaja, certo apenas de qual seria a sua próxima etapa. Quando “chega”, não tem recordações dos lugares que atravessou, mas sob hipnose é capaz de recordar as jornadas feitas e rever anos totalmente esquecidos.
Os relatos médicos acerca de Albert assinalam o início de uma nova epidemia de viajantes alienados compulsivos, cujo epicentro situou-se em Bordéus, não tardando contudo em se estender a Paris, toda a França, Itália e mais tarde Alemanha e Rússia. A fuga provém de um distúrbio médico e recebe as suas primeiras designações: o Wandertrieb alemão é seguido por outros termos de ressonância grega ou latina, tais como automatismo ambulatório, determinismo ambulatório, dromomania ou poriomania.
As fugas, o mesmo será dizer, viagens bizarras e repentinas, decorrem muitas vezes sob estados de consciência obscurecida, são conhecidas desde sempre, mas só a partir de 1887 com a publicação de uma tese de doutoramento, é que a viagem patológica se tornou um tipo específico de demência susceptível de diagnóstico.
Sendo a história de Albert, um conjunto de aventuras picarescas e patéticas, porquê narrá-la actualmente? Porque estamos rodeados por doenças mentais que muitas das vezes derivam mais da neurose que da psicose e que nos questionam acerca de quais poderão estar relacionadas com os afectos, com os artefactos culturais, síndromas ou falsificações suscitadas pela própria profissão médica, e quais, para falar rapidamente e de forma algo obscura, são verdadeiras.
1. Philippe Tissié, Les aliénés voyageurs: essai médico-psychologique. Paris: O. Doin, 1887
IAN HACKING em Les Fous voyageurs
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