ZONA PREVIAMENTE DEMARCADA EMBORA NÃO SE LHE CONHEÇAM OS SEUS LIMITES
PISTA DE DIMENSÕES DESCONHECIDAS NA QUAL OS SEUS INTERVENIENTES POSSUEM UMA FUNÇÃO EMBORA NÃO ESTEJA ESCLARECIDO SE SE ENCONTRAM NO ACTIVO OU COM PEQUENAS REMINISCÊNCIAS DE FUNÇÕES ANTERIORES

ALBERT DADAS: O Primeiro Fugitivo

"Numa manhã de julho do ano passado, ao entrar no serviço de clínica 
do nosso mestre M., professor Pitres, apercebemo-nos de um jovem, 
por volta dos 26 anos, choroso e angustiado na sua cama de hospital. 
Chegara de uma longa viagem feita a pé, estava exausto, não sendo, contudo, a fadiga a causa das suas lágrimas. Não conseguia impedir-se de partir quando tomado por tal necessidade; era então surpreendido, cativado por um desejo imperioso; abandonava família, trabalho, rotinas e partia repentinamente, caminhando depressa, fazendo 70km a pé num só dia, sendo por fim preso sob acusação de vagabundagem”. 1

Assim começa a nossa história no serviço do velho hospital Saint-André de Bordéus. Este jovem, de primeiro nome Albert, é um empregado ocasional de uma companhia de gás e o primeiro fugitivo. Viria a tornar-se célebre pelas suas extraordinárias expedições à Algéria, Moscovo e Constantinopla. Parte de forma obsessiva, como que enfeitiçado, muitas vezes sem documentos e por vezes na total ausência de identificação, não sabendo quem é, nem por que motivo viaja, certo apenas de qual seria a sua próxima etapa. Quando “chega” não tem recordações dos lugares que percorreu, mas sob hipnose é capaz de recordar as jornadas feitas e rever anos totalmente esquecidos.

Os relatos médicos acerca de Albert assinalam o início de uma nova epidemia de viajantes alienados compulsivos, cujo epicentro situou-se em Bordéus, não tardando, contudo, em se estender a Paris, a toda a França, Itália e mais tarde Alemanha e Rússia. A fuga provém de um distúrbio médico e recebe as suas primeiras designações: o Wandertrieb alemão é seguido por outros termos de ressonância grega ou latina, tais como automatismo ambulatório, determinismo ambulatório, dromomania ou poriomania.

As fugas, o mesmo é dizer, as viagens bizarras e repentinas, decorrendo muitas vezes sob estados de consciência alterada, são conhecidas desde sempre, mas só a partir de 1887, com a publicação de uma tese de doutoramento é que a viagem patológica se tornou um tipo específico de demência susceptível de diagnóstico.

Sendo a história de Albert um conjunto de aventuras picarescas e patéticas, porquê narrá-la nos dias de hoje? Porque estamos rodeados por doenças mentais, muitas das vezes resultantes mais da neurose do que da psicose, que nos fazem reflectir sobre quais poderão estar associadas aos afectos, artefactos culturais, síndromas ou falsificações suscitadas pela própria profissão médica, e quais, para falar de modo simplificado e um pouco vago, são verdadeiras.

em Les Fous Voyageurs_Ian HACKING_2002_Paris: Le Seuil - Les Empêcheurs de penser en rond

1. TISSIÉ, Philippe_Les aliénés voyageurs: essai médico-psychologique_Paris: O. Doin_1887